A boxeadora paulista Jully “Poca” de Oliveira, 32 anos, passou a integrar o quadro de embaixadores globais da Stake a partir de 18 de agosto de 2026, movimento que marca a primeira entrada formal da operadora no boxe depois de anos concentrada no UFC. O acordo chega num momento de ascensão da carreira profissional de Jully, que soma mais de 6 milhões de seguidores no Instagram e no TikTok e vinha de sequência invicta desde a estreia no boxe, em 2023.
Nascida em Santo André, no ABC paulista, em 7 de abril de 1994, Jully começou a treinar sanda (também chamado de boxe chinês) aos 17 anos, inicialmente como forma de defesa pessoal. “Comecei a fazer sanda como defesa pessoal, sempre quis aprender a me defender”, contou a lutadora em entrevista ao UFC Podcast, programa oficial do UFC Brasil, ainda em novembro de 2024. A modalidade, segundo ela, funciona como um equivalente chinês do MMA, combinando socos, quedas e projeções, disciplina que ela também chegou a lecionar para mulheres em Santo André antes de se voltar profissionalmente ao boxe.
O momento em que projetou Jully para além do universo fitness aconteceu em 2019, quando ela interveio para proteger uma mãe e a filha de um motorista de aplicativo que as agredia na Radial Leste, em São Paulo. Jully afastou a mulher mais velha do local, imobilizou o agressor com um golpe e o manteve rendido, com os próprios cadarços amarrando braços e pernas, até a chegada da polícia. O episódio, somado ao conteúdo de rotina fitness que já produzia nas redes, ajudou a construir a base de seguidores que, anos depois, chamaria a atenção da Stake Brasil, marca que passou a enxergar na atleta um perfil raro de alcance digital somado a resultado competitivo dentro do ringue.
A entrada no boxe começou por acaso, com um convite para lutas de exibição entre influenciadores digitais. Jully venceu suas primeiras disputas, despachou a ex-atriz Elle Brooke na semifinal do Kingpyn High Stakes, torneio britânico disputado em Dublin, e conquistou o cinturão peso-cruzador do Misfits Boxing em novembro de 2023, ao superar a rival conhecida como Vampira. Defendeu o título outras duas vezes ao longo de 2024, período em que também recebeu convite oficial do UFC Brasil para conversar sobre a trajetória num podcast dedicado ao esporte. Na mesma fase, chegou a sugerir publicamente um confronto com Ronda Rousey, ídolo do UFC e nome fundamental na popularização do MMA feminino, ainda que aposentada da competição desde 2016. “Não tenho nada a perder, mas vou lutar para ganhar”, disse a brasileira, ao comentar o desafio hipotético em entrevista a um podcast especializado em luta, episódio que ilustra bem o apetite da atleta por medir forças com nomes consagrados, dentro ou fora do próprio boxe. Em janeiro de 2026, formalizou a virada de chave que já se desenhava e assinou contrato com a Most Valuable Promotions (MVP), empresa de boxe fundada pelo youtuber Jake Paul, abandonando de vez o rótulo de simples fenômeno da internet.
A aposta da Stake no boxe feminino
A chegada de Jully ao quadro de embaixadores da Stake integra uma estratégia mais ampla da operadora dentro dos esportes de combate. A empresa já atua como parceira oficial de apostas do UFC no Brasil e mantém entre seus embaixadores nomes como Alex “Poatan” Pereira e Alexandre Pantoja, ambos ex-campeões da organização. Com Jully, a Stake passou a ter, pela primeira vez, uma representante oficial no boxe, movimento que o diretor de marketing da empresa, Akhil Sarin, descreveu como expansão natural do portfólio. “Temos um ótimo elenco de lutadores em nossas fileiras e temos orgulho de ter adicionado não apenas uma boxeadora emergente, feroz e invicta, mas alguém que abriu caminho para influenciadoras que desejam se firmar nas lutas”, afirmou Sarin.
Do lado da própria atleta, a entrada na Stake Brasil foi descrita como reconhecimento de uma trajetória construída fora dos caminhos tradicionais do boxe olímpico ou amador. “A Stake é uma marca enorme, com uma presença muito forte no esporte, principalmente nos esportes de combate, então para mim essa parceria faz todo sentido”, disse Jully. “Sempre quis trabalhar com marcas que realmente acreditassem em mim, na minha carreira e em tudo o que estamos construindo.”
O movimento da Stake também dialoga com uma tendência maior de investimento crescente no boxe e no MMA femininos. Poucos dias depois do anúncio, Jully subiu ao ringue em Temecula, na Califórnia, contra a americana Cinderella Linnear, dentro do undercard (card secundário, na tradução livre do termo usado no boxe para nomear as lutas que antecedem o combate principal da noite) da disputa entre Amanda Serrano, um dos maiores nomes da história do boxe feminino, e a argentina Lucrecia Manzur, pelos cinturões peso-pena da Organização Mundial de Boxe (WBO) e da Associação Mundial de Boxe (WBA). A presença de Jully num card dessa magnitude, ao lado de uma referência histórica da modalidade, ilustra o quanto o boxe entre mulheres deixou de ser nicho para se tornar produto capaz de sustentar transmissões ao vivo em plataformas como o TikTok, onde o evento foi transmitido gratuitamente.
O primeiro teste profissional
Jully vinha de estreia vitoriosa no boxe, com decisão unânime sobre Monica Medina em junho de 2026, na MVPW-04, em Orlando, resultado que já era um reencontro, já que as duas haviam se enfrentado antes numa luta de exibição sob a bandeira do Misfits Boxing, em novembro de 2025, também vencida por Jully. O contrato assinado com a MVP prevê ao menos três lutas por ano, cláusula que a própria atleta destaca como prioridade. “Meu contrato com a MVP me garante pelo menos três lutas por ano. Isso é muito importante para mim porque quero me manter ativa”, disse.
Contra Linnear, porém, a sequência invicta chegou ao fim. A americana, que retornava de mais de um ano sem lutar, venceu por decisão dividida (39 a 37, 37 a 39 e 39 a 37), primeiro revés de Jully desde a estreia no boxe, em 2023. O resultado interrompe um retrospecto que somava seis vitórias entre lutas de exibição e o início da fase profissional, e chega justamente na semana seguinte ao anúncio da parceria com a Stake.
Linnear chegava ao combate com currículo bem mais modesto no boxe profissional, apenas uma luta antes do confronto, vencida por decisão unânime sobre Desiree Davila em agosto de 2025. A americana, natural de Shreveport, na Louisiana, e radicada em Arlington, no Texas, também trazia mais de um ano de inatividade, fator que reduzia o material disponível para qualquer análise prévia de estilo e ajudava a explicar a imprevisibilidade do resultado. Jully, por sua vez, chegava ao ringue projetando confiança na evolução técnica desde a estreia profissional, num momento em que também revelava publicamente Amanda Serrano como o confronto dos sonhos e Tóquio como a cidade onde mais gostaria de lutar ao menos uma vez na carreira.
A base técnica que Jully credita como diferencial vem justamente do sanda, modalidade que ela também tentou popularizar em entrevistas e conteúdo próprio. “O sanda me deu uma base muito importante como lutadora, principalmente em relação à movimentação, controle de distância, explosão, reflexos e capacidade de adaptação durante a luta”, explicou, ao comparar a arte marcial chinesa a uma espécie de MMA local, que combina socos, projeções e quedas dentro de um mesmo combate. Mesmo depois de migrar quase que integralmente o treino para o boxe puro, a atleta reconhece que a bagagem anterior segue moldando seu estilo dentro do ringue, sobretudo no jogo de pernas e na leitura de distância contra adversárias mais altas.
O cartel de Jully Poca no boxe
Parte do apelo de conteúdo que Jully constrói em torno da própria carreira vem justamente dos bastidores da preparação, tema que ela aborda com humor mesmo em situações desconfortáveis. Em relato sobre o corte de peso para uma de suas lutas anteriores, a atleta descreveu o processo de forma bem diferente do que costuma acontecer no MMA. “No boxe a gente tenta tirar o menos possível, porque a gente utiliza muita perna. A gente não pode ficar tão cansado assim porque a gente usa muito a perna, são mais rounds também”, explicou, ao contrastar a rotina do boxe com cortes mais agressivos comuns em outras modalidades de combate.
A relação de Jully com o próprio corpo durante a preparação também aparece como conteúdo recorrente em suas redes, o que ajuda a explicar parte do apelo comercial que despertou o interesse da Stake. Segundo relatos da própria atleta, ela já enfrentou episódios de retenção de líquido ligados ao ciclo menstrual em vésperas de pesagem, o que a obrigou a perder até 4 kg extras em poucas horas antes de um combate, rotina que ela descreve como cada vez mais previsível conforme acumula experiência no esporte.
Manter as duas frentes em equilíbrio, atleta profissional e criadora de conteúdo, virou desafio próprio dentro da rotina. “Eu amo criar conteúdo e tenho uma comunidade enorme que me acompanha todos os dias. Então tento organizar minha rotina de uma forma que me permita fazer as duas coisas”, disse Jully, ao comentar como concilia a agenda de treinos com a vida de influenciadora. “Às vezes termino um treino completamente acabada e ainda preciso gravar, postar conteúdo ou trabalhar em alguma campanha, mas faz parte. E também acho muito legal poder mostrar para tanta gente como é, de verdade, a rotina de uma atleta profissional.” A fala resume bem o modelo híbrido que sustenta a carreira dela hoje, em que audiência e desempenho esportivo caminham juntos.
O portfólio de combate da Stake
Além de Jully, a Stake mantém uma vitrine relevante de nomes ligados a esportes de combate no Brasil e no exterior. A empresa figura como parceira oficial de apostas do UFC no país, o que já garantia visibilidade elevada mesmo antes da chegada da boxeadora paulista ao quadro de embaixadores. Fora do universo das lutas, a marca também mantém contratos internacionais de peso, casos do cantor canadense Drake e do Everton, da Premier League inglesa, o que situa o acordo com Jully dentro de uma estratégia de marca que mistura esporte, entretenimento e cultura pop de forma deliberada, não apenas patrocínio tradicional a atletas de alto rendimento.
Jully projeta ainda outros marcos para a carreira, entre eles um confronto com Amanda Serrano, referência que ela cita como inspiração direta, e a possibilidade de lutar em Tóquio, cidade pela qual nutre conexão declarada. O calendário mínimo de três lutas anuais previsto em contrato com a MVP garante que novas oportunidades de reverter o resultado de Temecula surjam rapidamente, o que também mantém o interesse comercial em torno da parceria com a Stake, ainda em fase inicial.
A trajetória de Jully também acompanha um momento de maturação do próprio boxe entre mulheres como produto de entretenimento em massa. Cards que reúnem nomes com forte apelo digital ao lado de campeãs consagradas, caso da Amanda Serrano, deixaram de ser exceção para virar formato recorrente de promoção, sobretudo dentro da MVP, empresa fundada especificamente com a proposta de dar às lutadoras protagonismo equivalente ao dos homens em cartazes de peso. A presença de patrocinadores como a Stake nesse ecossistema, atraídos tanto pelo desempenho esportivo quanto pelo alcance de audiência das próprias atletas, reforça a percepção de que o boxe feminino deixou de depender exclusivamente de resultado dentro do ringue para sustentar interesse comercial de longo prazo.
Para o boxe feminino brasileiro, o episódio já demonstra como o mercado de apostas esportivas passou a enxergar atletas com forte presença digital como ativo de marketing tão valioso quanto o histórico esportivo em si. O caso de Jully, aliás, ilustra bem essa lógica: a base de seguidores, a repercussão do episódio de defesa pessoal em 2019 e o apelo junto ao público brasileiro seguem sustentando o interesse da marca, independentemente de resultado pontual dentro do ringue, prova de que o valor comercial de uma atleta-influenciadora hoje se mede por camadas bem mais amplas do que apenas o cartel de vitórias e derrotas.
Exclusivo: Michael PQD fala sobre estreia com vitória brutal no UFC

Comentários