Especial Família Gracie: Sede de treino do UFC, Maracanã foi palco histórico há 63 anos

Em 23 de outubro de 1951, Hélio Gracie desafiou o lendário judoca Masahiko Kimura, em um combate que marcou época nas artes marciais

Kimura (esq.) e Hélio (dir.)  antes da grande luta. Foto: Reprodução

Kimura (esq.) e Hélio (dir.) antes da grande luta. Foto: Reprodução

Nesta quinta-feira (24), o Estádio do Maracanã sediará os treinos abertos do UFC 179, no Rio de Janeiro (RJ). Mais do que a presença do maior evento de MMA em um dos mais importantes palcos do esporte mais popular do planeta, o encontro remonta 63 anos atrás, quando o palco da final das Copas do Mundo de 1950 e 2014 também sediou um grande evento de artes marciais.

O ano era 1961 e o jiu-jitsu ainda não tinha o nome e o respeito internacional dos dias de hoje e, justamente por isso, o jovem Hélio Gracie quis demonstrar o potencial desta arte marcial importada e adaptada por sua família a todo o mundo.

Para isso, Hélio enfrentou o lendário judoca faixa preta Masahiko Kimura, discípulo direto do fundador da primeira escola de judô Jigoro Kano, em um embate de duas artes marciais derivadas do jiu-jitsu japonês.

O contexto

Os irmãos Hélio e Carlos Gracie. Foto: Reprodução

Os irmãos Hélio e Carlos Gracie. Foto: Reprodução

Esta não seria a primeira vez que Hélio Gracie enfrentaria um pupilo de Jigoro Kano. Alguns anos antes do duelo contra Kimura, ele já havia empatado duas vezes contra Geo Omori e empatado uma e vencido a outra contra Yukio Kato. Os combates, no entanto, não tiveram ampla cobertura da imprensa. Assim, os irmãos Hélio e Carlos esperavam capitalizar ainda mais sobre a visita da seleção japonesa de Judô em 1951.

A dupla então foi atrás dos jornais e espalhou que os japoneses vieram ao Brasil exibir um estilo incompleto, que se trataria apenas de uma “parte” do jiu-jitsu. Além disso, eles condenaram a prática do judô esportivo, que, além de tudo, ainda contrariaria a premissa original das artes marciais: seu uso em situações de combate.

A estratégia deu certo, chamou a atenção dos nipônicos e o jornal Diário da Noite do dia 3 de setembro de 1951 trouxe a seguinte manchete esportiva: “O Japão jogará no Brasil o prestígio de seu jiu-jítsu”, conforme citado pelo jornalista Fellipe Awi no livro “Filho teu não foge à luta” (2012).

Hélio Gracie

Hélio Gracie (foto) faleceu em 2009, aos 95 anos. Foto: Reprodução

Hélio Gracie (foto) faleceu em 2009, aos 95 anos. Foto: Reprodução

Filho mais novo dos oito herdeiros de Gastão e Cesalina Gracie, Hélio nasceu em Belém (PA) no dia 1º de outubro de 1913. Foi na adolescência que teve seu primeiro contato com o jiu-jitsu, introduzido à sua família por Esai Maeda (também conhecido como “Conde Coma”). Hélio e seu irmão mais velho Carlos, aluno direto de Maeda, são apontados como os pais do jiu-jitsu brasileiro – ou Gracie jiu-jitsu.

Se a flexibilidade e a possibilidade de um lutador mais fraco superar outro mais forte sempre foram os motes do jiu-jitsu desde sua origem, tais conceitos cresceram exponencialmente com Hélio Gracie. Franzino e dono de uma saúde frágil, Hélio aplicou de forma ainda mais eficiente o princípio de alavanca à arte-suave. Sua iniciação como mestre de jiu-jitsu rendeu uma história que é repetida à exaustão e amplamente difundida no meio do esporte.

Já no Rio de Janeiro, Hélio se aproveitou do atraso de Carlos para o treino de um aluno chamado Mário Brandt, um funcionário do Banco do Brasil, e iniciou a aula. Algum tempo depois, o irmão finalmente chegou. Desculpou-se com Brandt, mas ouviu do discípulo que a partir de agora ele gostaria de tomar aulas com Hélio.

Desde muito jovem, sua primeira luta de vale-tudo aconteceu quando tinha apenas 18 anos, Hélio Gracie se dedicou a outra arte fundamental para o desenvolvimento do jiu-jitsu: a promoção. Em suma, a estratégia se resumia a uma série de desafios públicos aos principais nomes das demais artes marciais, reforçados por um trabalho eficiente de mídia, com declarações polêmicas e que quase sempre rendiam manchetes. E foi exatamente assim que Hélio acertou aquela que se tornaria a luta mais famosa de sua carreira.

A luta

No dia 23 de outubro de 1951, uma terça-feira, 20 mil pessoas, entre elas o presidente Getúlio Vargas, compareceram ao Maracanã, que há pouco mais de um ano havia sido palco do Maracanazzo, para acompanhar o duelo entre Hélio Gracie e Masahiro Kimura.

Apesar de ser ligeiramente mais baixo do que Hélio, Kimura era cerca de 35 kg mais pesado do que o brasileiro – o que fazia daquele combate, em uma analogia usada pelos próprios Gracies, um duelo de “Davi contra Golias”.

As provocações de Kimura, que chegou a declarar se consideraria derrotado caso não vencesse Hélio em menos de três minutos, não chegaram a ser um problema, mas as condições climáticas sim. Devido a uma forte chuva, a luta, organizada às pressas, quase não aconteceu. Mesmo confirmado, o evento começou com mais de uma hora de atraso.

Antes mesmo do início do combate, nos microfones, Hélio Gracie já deu a entender que uma vitória seria difícil e salientou o espírito esportivo. Parecia, então, que o objetivo do brasileiro era atingir o japonês, ferindo-o no ego, como destacou a reportagem de “O Cruzeiro”, reproduzida por Reila Gracie no livro “Carlos Gracie” (2008).

“O japonês fica dentro da guarda de pernas de Hélio, mas a rompe em seguida, usando força e técnica, atravessando o seu volumoso tórax no peito do brasileiro. A defesa clássica de Gracie foi superada pelos músculos de Kimura, que desengatou com os joelhos as alavacas protetoras do nacional, realizando, assim, a primeira montada. Gracie concentrou-se na defesa. Teria que realizar um superdesdobramento técnico para resistir aos possantes arrancos do gigante amarelo”.

E assim o fez. Em um “superdesdobramento”, Hélio resistiu mais do que os três minutos anunciados por Kimura. Na verdade, Gracie levou o combate até o segundo round, quando foi arremessado de forma violenta ao solo e chegou a desmaiar por alguns instantes.

Mesmo recobrando os sentidos, Hélio já estava imobilizado e sem forças para resistir à chave de braço quase indefensável aplicada por Masahiro Kimura. Até então conhecida como Ude Garami, a finalização passaria a ser chamada de Kimura daí em diante.

Mesmo diante do iminente fim e sentindo uma dor lancinante, Hélio se recusou a bater em desistência e o combate só foi encerrado quando o irmão Carlos jogou a toalha, temendo por sua integridade física.

Apesar do resultado da luta ser de vitória para Masahiko Kimura, tanto para os Gracies quanto para a imprensa da época, a luta foi vista como uma demonstração de coragem, força e habilidade do brasileiro, e Hélio foi tratado como o “vencedor moral”. Mas mais do que isso, a partir daquela luta, a história do jiu-jitsu e das artes marciais, no Brasil e no mundo, jamais seria a mesma.

Assista abaixo a trechos da luta entre Hélio Gracie e Masahiko Kimura:

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