Diretamente do Amazonas, Milson Castro, peso leve (até 70,3kg.), representante da Brazilian TKO e também conhecido como ‘Barão’, vive grande momento em sua carreira. Ídolo de muitos sul-coreanos que acompanham o evento Black Combat, o brasileiro conseguiu alcançar vivências que jamais havia sonhado em sua longa carreira desde então.
Apesar da fase atual ser muito positiva, o lutador já passou por altos e baixos, já chegou a se aproximar em múltiplas ocasiões de assinar contrato com UFC e também de desistir da vida de atleta. Hoje, prestes a disputar cinturão dos meio-médios (até 77,1kg.) em sua nova organização, Barão abriu o jogo em entrevista exclusiva ao SUPER LUTAS e contou sua trajetória árdua e de orgulho até alcançar espaço no continente asiático.
“Assim como a maioria das crianças do Brasil, a gente tenta ser jogador de futebol. Comecei pelo futebol, ainda joguei futsal na seleção sub 15 da minha cidade, mas nunca fui muito bom e depois a primeira arte marcial que treinei foi a capoeira. Depois do contato com a capoeira, fui para o MMA e já fiz aquele treino e falei: ‘caramba, encontrei o que quero para minha vida’, isso foi em 2011. Hoje em dia até falo com o mestre (André Dida) brincando, que eu sou faixa preta de MMA. Eu já comecei direto no MMA. Mas hoje sou faixa preta de muay thai do mestre Dida”
Milson Castro em Renovação Coari Team, academia de Amazonas. Foto: Reprodução/Instagram @milsoncastromma
Ao contrário de alguns, Milson teve início conturbado na carreira profissional. Logo após suas duas primeiras lutas, o atleta acabou amargando cinco reveses consecutivos, fato que o fez repensar se estava na profissão certa.
“Essa fase na minha vida foi muito difícil, porque eu sabia o quanto era dedicado, o quanto treinava e que eu era melhor que aquilo. Só que chegava na hora da luta, acho que a parada era meu psicológico, eu era totalmente oposto do que sou hoje. Quando me chamavam para entrar no octógono eu já ia cabisbaixo, querendo sair dali. Bem diferente dos treinos, eu sempre treinei com uma galera muito forte, fui abençoado em cair em uma equipe muito boa no Amazonas.
“Eu lutei em vários eventos que as lutas não tinham Sherdog, Tapology, no interior do Amazonas. Então nesse período não foram três, foram cinco derrotas consecutivas. A minha última derrota, colocaram um cara para eu ganhar a luta, o cara tinha uma vitória e uma derrota, eu já tinha duas vitórias e quatro derrotas, eu era bem superior e fui nocauteado em 43 segundos, na minha cidade. Cheguei a pensar se aquilo realmente era para mim. Eu tentava parar de treinar, pensar em luta, mas nunca consegui. Isso me abalou muito”
Milson Castro em combate de MMA. Foto: Reprodução/Instagram @milsoncastromma
Apesar da sequência amarga de derrotas, Milson destacou importância da fala de sua esposa, que o ‘impediu’ de abandonar o mundo da luta e conseguiu inspirá-lo a seguir buscando o caminho das vitórias.
“Eu morava lá no Amazonas ainda, na casa do meu pai, com minha esposa e minha filha. Minha esposa chegou do trabalho um dia, eu estava deitado com roupa de treino, não ia treinar. Ela entrou, olhou e voltou com meu material de treino e falou: ‘e aí, você não vai treinar não? Você vai fazer o que da sua vida? Você não terminou seus estudos, não tem estudo nenhum, não é herdeiro de nada, quando sua filha pedir alguma coisa, o que tu vai fazer?’. Engoli aquilo seco, peguei meu material, a moto e fui treinar chorando e a partir dali, parece que Deus tinha pegado minha mão e vem aqui que agora vou cuidar de ti.
“Em janeiro de 2017 apareceu uma luta para mim na cidade de Manaus. Isso do Amazonas que chateia a gente, você não ganha praticamente nada e aí peguei um cara, o cara era 8-0, ganhei do cara por pontos na decisão dividida e aí no Shergdog colocaram um cara nada a ver que tinha duas vitórias e quatro derrotas, mas naquele momento eu nem importava, porque eu estava vindo de tantas derrotas que a vitória era o que mais importava. E a partir dali surgiu o Milson Barão. Me mantive de 2017 até janeiro de 2023, tive uma sequência de vitória que nem eu imaginava”
Milson já em Curitiba representando a Brazilian TKO, antiga Evolução Thai. Foto: Reprodução/Instagram @milsoncastromma
Parceiro de treinos de atletas que representam o Ultimate, Milson é lembrado por ser um amigo que, independente de não ter alcançado seu sonho até o momento, sempre se mantém enérgico e fiel enquanto ajuda e acompanha seus aliados em preparações para lutas. O atleta, que já quase entrou na organização, contou como foi lidar com a aproximação do contrato em duas ocasiões.
“O UFC é um evento que não tem regras. Não tem uma parada que você vá fazer e será contratado. Nessa sequência de 2017 a 2023, eu vinha de 13 vitórias seguidas (…) por duas vezes eu recebi a mensagem que estava contratado pelo UFC e contrato não chegou”
“A primeira vez eu estava saindo de um treino em Curitiba, em 2022, meu empresário ligou dizendo que eu estava no UFC e que iria enfrentar o Jim Miller de última hora. Já entrei no carro, estava indo para casa, aí quando cheguei no portão o Bernardo (Serale) me ligou dizendo que não ia dar tempo porque já era para o próximo sábado, aí entrou o Nikolas Motta.
“(…) depois mudei pro Rio de Janeiro, Bernardo falou que teria luta no LFA, que iam trazer um americano, ex-UFC, que era a luta que precisávamos para entrar no UFC. Quando fechou essa luta no LFA, apareceu o UFC Rio e eu botei na minha cabeça que ia lutar, fiz o camp pro UFC. Na semana da luta, eu estava no peso para desidratar para bater o peso de 70kg. Faltando uma semana o Bernardo me ligou dizendo que estávamos no UFC, enfrentando o Thiago Moises e até 15h iriam mandar o contrato e que jogaríamos na mídia (…) fiquei na ansiedade já pensando tudo que eu diria pro meu pai, a foto que eu ia postar nas redes sociais. Deu 16h o UFC postou que o Melquizael Costa tinha pegado a luta. Foi um banho de água fria de novo. Como o Thiago já era contratado ele tinha o poder de escolha e pediu o Melquizael”
Milson Castro em apresentação na Coreia do Sul. Foto: Reprodução/Instagram @milsoncastromma
Em meio a conquista de título no Centurion FC e derrota no RCC, Milson recebeu convite inesperado para ingressar em um reality show de lutas promovido por sul-coreanos. Disposto a encarar quem estiver à sua frente, o atleta aceitou imediatamente e hoje é aclamado pelo povo asiático.
“O mestre falou que tinha um cara trazendo um reality show para Curitiba, na categoria até 77kg. Pesa um dia e faz três lutas, só que achei que eram três lutas no mesmo dia. Só que é luva de sparring e caneleira, como se fosse amador (…) no reality eram três dias, uma luta por dia, quem ganhava ficava na casa, quem perdia ia embora. O reality era inspirado (na série) Sexto Round, então para você comer, tinha que comprar, para tomar banho tinha que comprar. Eu me dei muito bem no evento e ganhei os caras.
“O evento até então era desconhecido e quando cheguei na Coreia do Sul eu senti o impacto. Todo mundo acompanha e quando cheguei todo mundo já me conhecia. Quando eu ganhava (no reality), fazia ‘heeey’ e todo mundo imitava e todo mundo que me via na rua falava e aí pegou isso. Fiz a primeira luta e finalizei. Agora quando voltei para a segunda luta, a parada estava gigante, uma parada que nunca vi. O tratamento dos fãs asiáticos, os caras vão no hotel, levam presente para mim, para minha filha. Nessa luta os caras colocaram o campeão de 84kg e era uma luta que eu estava apreensivo, cara mais forte, mas eu estava treinando muito e ganhei de uma forma muito agressiva”
“quando terminou a luta, começou todo mundo a correr, pensei que tinha algo desabando, mas era a galera correndo para cima de mim, uma parada que nem em sonho tinha vivido, esse assédio positivo, esse carinho dos fãs asiáticos que estou vivendo no Black Combat”
Milson Castro cumprimentando fãs após vitória. Foto: Reprodução/Instagram @milsoncastromma
Apesar de estar em grande momento na Coreia, Milson segue empenhado em conquistar seu espaço para lutar no UFC um dia.
“Eu acredito muito que vou lutar no UFC ainda. É o meu sonho e eu acredito que Deus não vai deixar eu sair dessa terra sem eu realizar meu sonho, mas hoje eu estou muito feliz, to desprendido do UFC. Uma hora o UFC vai bater na minha porta. Acredito que vou lutar no UFC ainda, sou um cara realizado”, concluiu.