
Conor McGregor (esq.) volta ao UFC contra Max Holloway (dir.). Foto: Montagem/SL
Em 11 de julho, a T-Mobile Arena em Las Vegas receberá um dos eventos mais aguardados da história recente do esporte. Na noite principal do UFC 329, durante a International Fight Week, Conor McGregor e Max Holloway voltam a se encarar, treze anos depois do único encontro entre os dois, uma noite em Boston que, na época, parecia apenas mais uma preliminar, mas que o tempo transformou num dos confrontos mais emblemáticos já realizados dentro de um octógono.
Quando o anúncio foi feito durante a transmissão do UFC Vegas 117, em 16 de maio, a reação imediata não foi de surpresa, e sim de alívio. McGregor estava de volta. Oficialmente. Após cinco anos e três semanas sem competir, a ausência mais prolongada de sua carreira, o irlandês de 37 anos tem data marcada, adversário confirmado e categoria definida: os meio-médios, com limite de 77 quilos.
A notícia chegou no momento exato em que Francis Ngannou fazia seu walkout num evento da Most Valuable Promotions em parceria com a Netflix. O timing não passou despercebido por Jake Paul, cofundador da promotora. “O viciado em cocaína voltou. Legal, irmão. Anunciem durante o nosso evento. Não importa. Isso só mostra o quão desesperados eles estão, pequenos meninos inseguros tentando elevar o evento deles ao colocar notícias por cima do nosso”, disparou Paul em coletiva de imprensa. O UFC, na prática, havia sequestrado a notícia da noite com um único anúncio.
Quem já está de olho no combate desde o anúncio são os apostadores. As apostas UFC 329 movimentam os mercados há semanas, com odds que refletem não apenas o histórico dos dois, mas principalmente o peso de cinco anos de inatividade do irlandês, tempo em que Holloway disputou oito combates no Ultimate, sempre contra adversários de elite.
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A revanche acontecerá numa divisão inédita para Holloway: os meio-médios, sete quilos acima dos leves onde o havaiano passou a competir nos últimos anos. Uma variável que, como se verá adiante, divide opiniões até entre quem conhece os dois de perto.
Para entender o que está em jogo em julho, é preciso voltar ao TD Garden, em Boston, Massachusetts, num sábado de agosto de 2013.
Era o dia 17. A luta principal da noite seria Chael Sonnen finalizando Mauricio “Shogun” Rua. No topo das preliminares, Michael McDonald nocauteou Brad Pickett. Em algum lugar no meio do card, dois jovens desconhecidos do grande público subiram ao octógono sem que ninguém soubesse exatamente o que estava prestes a acontecer.
McGregor tinha 25 anos e apenas uma vitória no UFC, um nocaute sobre Marcus Brimage na Suécia, meses antes. Holloway, então com 21 anos, entrava com cartel de 3-2 na organização. Nenhum dos dois estava nem perto do main event. Mas o irlandês já trazia consigo algo que não cabia no currículo: uma equipe de documentaristas o seguia pelas ruas de Boston nos dias anteriores ao combate; as luzes da arena foram apagadas para sua entrada, tratamento incomum para um lutador de card preliminar; ele entrou ao som de “I’m Shipping Up To Boston”, dos Dropkick Murphys, para uma plateia repleta de bandeiras irlandesas numa cidade com raízes históricas profundas na Irlanda.
“Por que estou promovendo esse cara? Por que estou apostando nele? Porque amo o que ele representa”, disse Dana White na época, segundo o ESPN.
Dentro do octógono, o boxe incomum de McGregor criou problemas imediatos para Holloway no primeiro round. Um uppercut no segundo round sugeriu o nocaute que boa parte da plateia esperava, mas ele não veio. A luta migrou para o chão na segunda metade do combate, com McGregor mantendo controle suficiente para vencer nas três fichas dos juízes. Seu cartel foi a 14-2, com 2-0 no UFC.
O que o público não sabia era que McGregor havia lesionado o ligamento cruzado anterior do joelho durante o combate. “Quando voltamos a ficar de pé, eu estava cambaleando. Por isso, no terceiro round tive que mudar a estratégia e buscar o takedown. Não estou feliz por não ter finalizado”, declarou no pós-luta. A lesão o manteve fora por dez meses. Quando voltou, foi diretamente para uma luta principal em Dublin, onde nocauteou Diego Brandão.
Para Holloway, aquela derrota foi o ponto de virada. O que veio depois foi uma das sequências mais impressionantes da história dos pesos-pena: 13 vitórias consecutivas, o cinturão da divisão, duas defesas de título e os maiores números de golpes significativos conectados e vitórias por nocaute da história da categoria.
A carreira dos dois atletas divergiu completamente após aquela noite em Boston e isso torna o UFC 329 ainda mais interessante.
McGregor se tornou o maior fenômeno comercial que o MMA já produziu. Primeiro lutador da história do UFC a deter dois cinturões simultaneamente, o irlandês foi campeão dos penas e dos leves. Encabeçou as quatro maiores bilheterias de pay-per-view da história do MMA. Sua luta de boxe contra Floyd Mayweather, em 2017, é o segundo maior PPV da história dos esportes de combate, atrás apenas de Mayweather x Pacquiao. Seu cartel atual registra 22 vitórias (19 por nocaute) e seis derrotas.
Holloway, 34 anos, construiu algo diferente: longevidade na elite. Seu cartel chega ao UFC 329 com 27 vitórias e nove derrotas. Após consolidar seu domínio nos penas, subiu para os leves e entrou para a história ao nocautear Justin Gaethje no último segundo da luta principal do UFC 300, um dos momentos mais comentados do esporte nos últimos anos, conquistando o cinturão BMF (“Baddest Motherf****”, ou o “mais durão”). Em março deste ano, perdeu o título para Charles “do Bronx” Oliveira por decisão unânime no UFC 326, após cinco rounds dominados pelo brasileiro no grappling.
Estatisticamente, Holloway é uma máquina ofensiva. Conecta uma média de 6,91 golpes significativos por minuto, com precisão de 48%. Ao longo da carreira, desferiu 7.647 golpes significativos, conectando 3.681. Venceu 48% de suas lutas por decisão e 44% por nocaute. Sua defesa de golpes é de 59%, com 81% de eficiência na defesa de quedas.
McGregor apresenta números ofensivos mais modestos em volume, reflexo de combates significativamente mais curtos. Seu tempo médio de luta é de apenas 8 minutos e 2 segundos, contra 16 minutos e 39 segundos de Holloway. Mas sua média de knockdowns por luta é de 1,73, a mais alta entre os dois, e sua precisão de striking chega a 50%. Ele ostenta 86% de vitórias por nocaute ou TKO.
Ninguém no universo do MMA combina autoridade técnica e ceticismo quanto ao retorno de McGregor como Joe Rogan. Em diferentes episódios de seu podcast, o comentarista oficial do UFC construiu uma narrativa de preocupação genuína sobre o estado físico e mental do irlandês.
“Não sei se Conor lutará novamente. Ele está festejando muito. Ele falou sobre cocaína durante o processo judicial. Mas há também a questão dos danos cerebrais sofridos em treinos e combates. Muitos lutadores, especialmente no final de carreira, recorrem às drogas”, afirmou Rogan em 2024. Em outra ocasião, foi mais direto: “O que é realmente triste é se ele voltar com 39 ou 40 anos e o corpo simplesmente não responder mais.”
A ressalva ganha peso quando se considera o que McGregor viveu fora dos octógonos nos últimos anos. O irlandês enfrentou um processo civil por agressão sexual ligado a um incidente de 2018, tendo sido considerado culpado pelo júri em 2024. Um segundo processo, relacionado a um suposto incidente em Miami em 2023, foi encerrado sem julgamento no final do ano passado. Em 2023, foi acusado de agredir uma mulher em seu iate em Ibiza. No início de 2025, proferiu insultos racistas em redes sociais contra o ex-rival Khabib Nurmagomedov. Em outubro passado, recebeu uma suspensão de 18 meses pelo programa antidoping do UFC, com vigência retroativa a 20 de setembro de 2024, tornando-o elegível para competir a partir de 20 de março deste ano.
Paradoxalmente, foi o mesmo Rogan quem, em 2016, construiu uma das descrições mais precisas do que McGregor representa: “Conor é um ser humano especial. Não há muitas pessoas que surgem em qualquer geração com esse tipo de impacto em qualquer esporte. Não é só a capacidade de lutar, é a mente, o carisma, a capacidade de articular as coisas. Conor McGregor é um ser único na história.”
A tensão entre essas duas visões, o gênio que revolucionou o MMA e o lutador de 37 anos com cinco anos de inatividade e um histórico extracurricular turbulento, é exatamente o que transforma o UFC 329 em algo além de uma simples revanche.
Um dos poucos atletas que enfrentou ambos, McGregor três vezes e Holloway duas, Dustin Poirier emitiu sua análise durante participação no programa UFC on Paramount: vantagem para o havaiano, mas com uma variável importante no centro da equação.
“Quando lutei com ele pela última vez no peso-leve, ele já tinha potência nos golpes. Imagino que, no meio-médio, ele terá ainda mais força. O Max agora bate forte, não é apenas um lutador de volume, ele consegue definir lutas”, declarou Poirier.
O norte-americano conhece bem os dois lados da conversa. Tem retrospecto favorável contra McGregor, com duas vitórias em três lutas, incluindo o nocaute no UFC 257 e a vitória por TKO no UFC 264, combate em que o irlandês sofreu a fratura na perna que o tirou dos octógonos por mais de quatro anos.
Mas a dúvida sobre a potência de Holloway em divisões acima dos penas não é inédita. Quando o havaiano foi confirmado contra Justin Gaethje no UFC 300, em 2024, Joe Rogan expressou ceticismo parecido, baseado na derrota de Holloway para Poirier nos leves, em 2019. “O Dustin Poirier o dominou nos 55 libras. Acho que esses caras são um pouco grandes demais”, disse Rogan. Holloway respondeu nocauteando Gaethje no último segundo. Agora a mesma pergunta ressurge, em uma categoria sete quilos acima daquela em que o nocaute do UFC 300 aconteceu.
As casas de apostas já definiram seus favoritos, e a disparidade é considerável. McGregor aparece como amplo azarão, com odd de +475, enquanto Holloway figura como grande favorito, com odd de -450. A diferença reflete, principalmente, o tempo de inatividade do irlandês, cinco anos sem competir contra oito lutas de Holloway no mesmo período, todas contra atletas de elite. Vale lembrar que a derrota mais recente de Holloway, para Oliveira no UFC 326, pesa pouco diante de quase meia década sem entrar no octógono.
Horas após o anúncio oficial, McGregor foi direto no X: “Eu vou fazer de você o meu filho, menino. Mais uma vez. Você vai ter que colocar respeito na p*** do meu nome.” Holloway não demorou: “Não, meninão, você que vai ter que botar respeito no meu nome. Vamos descobrir no sábado à noite.”
A dinâmica é nova mesmo que os personagens sejam os mesmos. Em 2013, McGregor era o favorito óbvio: mais experiente, mais velho, com mais lutas no UFC. Agora a hierarquia se inverteu. Holloway chega com oito combates nos últimos cinco anos. McGregor chega sem ter competido desde julho de 2021.
O UFC 329 inclui ainda a luta entre Paddy Pimblett e Benoit Saint Denis nos leves. Completam o card: Cory Sandhagen x Mario Bautista nos galos, Brandon Royval x Lone’er Kavanagh nos moscas, Gable Steveson x Elisha Ellison nos pesados, e Robert Whittaker x Nikita Krylov nos meio-pesados.
Boston, 2013, finalmente ganha uma resposta: desta vez em peso meio-médio, em Las Vegas, diante de um público que vai pagar para descobrir se o McGregor de 2026 ainda é o mesmo homem que apagou as luzes do TD Garden há treze anos, ou se Holloway, o jovem que perdeu aquela noite e construiu uma carreira inteira sobre essa derrota, já ultrapassou o irlandês.
Faltam menos de dois meses. A transmissão será ao vivo e com exclusividade pelo Paramount+.