
Royce, Ronda, Poatan e Khabib são especialistas em diferentes artes marciais (Foto: Montagem/SUPER LUTAS)
O MMA moderno é o resultado da união entre diferentes artes marciais, cada uma com técnicas, estratégias e especialidades que moldam os estilos dos atletas. No UFC, maior palco da modalidade, essa fusão é evidente: do jiu-jitsu brasileiro, com suas finalizações no chão, ao muay thai, conhecido pelas cotoveladas e joelhadas devastadoras, passando pelo wrestling e seu domínio no corpo a corpo e muitas outras.
Se nos primórdios do UFC os confrontos pareciam testes entre estilos — como judoca contra boxeador ou karateca contra lutador de jiu-jitsu, hoje, os atletas são verdadeiros híbridos. Neste artigo, o SUPER LUTAS apresenta as artes marciais mais utilizadas no UFC, explicando como elas definem os estilos de luta e fazem a diferença dentro do octógono.
C. do Bronx finalizou J. Gaethje no UFC 274 (Foto: Instagram/UFC)
O jiu-jitsu brasileiro é, sem dúvidas, uma das bases mais importantes do MMA e teve papel fundamental na criação do UFC, quando Royce Gracie, vestindo um kimono, utilizou as técnicas de chão para superar adversários maiores e mais fortes nos primeiros torneios da organização.
O jiu-jitsu tem como foco as quedas, o controle posicional e as transições no solo e, principalmente, finalizações como o mata-leão, as chaves-de-braço e o triângulo, sendo essencial para lidar com situações de luta no chão, seja por cima ou por baixo.
Soberano nos primórdios do esporte, o jiu-jitsu sobreviveu à evolução do MMA e permanece relevante atualmente. São expoentes da arte-suave no octógono nomes como Charles do Bronx, recordista de finalizações do UFC, Demian Maia, Rodrigo Minotauro. Além deles, nomes como BJ Penn, Nate Diaz e Frank Mir provam que a modalidade ultrapassou as fronteiras brasileiras e se espalhou pelo mundo.
Dricus Du Plessis derruba Sean Strickland em luta no UFC 297. Foto: Reprodução/Instagram
O wrestling é uma das bases mais eficazes e dominantes no MMA moderno, especialmente no UFC. Com foco em quedas, controle posicional e transições dinâmicas, a luta olímpica permite que o atleta dite o ritmo do combate e escolha onde a luta acontece.
Atletas com forte base no wrestling têm facilidade para anular strikers, levando a luta para o chão e também para evitar finalizações no solo. A modalidade é valorizada por sua exigência física e mental, produzindo lutadores com alto preparo competitivo.
Nos Estados Unidos, onde o wrestling é parte do sistema escolar e universitário, ele funciona como um verdadeiro celeiro para o MMA. Grandes nomes do UFC vieram dessa tradição, como Daniel Cormier, Henry Cejudo, Jon Jones e Colby Covington — todos usando a base da luta olímpica para controlar e dominar adversários no octógono.
Conhecido como a “arte das oito armas”, o muay thai é uma das artes marciais mais letais quando o assunto é trocação. Originada na Tailândia, a modalidade apresenta o uso coordenado de socos, chutes, cotovelos e joelhos, além de um clinch que permite ataques curtos e controle do adversário a curta distância.
No MMA, o muay thai se destaca por sua capacidade de causar dano com golpes contundentes e de funcionar bem tanto no ataque quanto na defesa. A arte exige resistência física, leitura de distância e uma mentalidade agressiva, tornando-se uma base poderosa para quem busca o nocaute.
No UFC, atletas com base no muay thai já protagonizaram grandes momentos. O brasileiro José Aldo é um dos exemplos mais emblemáticos, com seu uso brutal de chutes nas pernas e joelhadas em movimento. Outro ícone é Anderson Silva, que utilizou o muay thai como base para um dos estilos mais letais e técnicos da história do esporte. Outros nomes como Valentina Shevchenko, Maurício Shogun, Rafael Fiziev e Joanna Jedrzejczyk também demonstraram como essa arte ancestral pode ser eficiente no octógono.
Alex Poatan nocauteou Jiri Prochazka no UFC 303 (Foto: Instagram/UFC)
O kickboxing é uma arte marcial de combate em pé que combina elementos do boxe com chutes típicos de diversas modalidades, oferecendo uma mistura de velocidade, potência e técnica. No MMA, e especialmente no UFC, o kickboxing tem se destacado como uma base fundamental para lutadores que buscam volume de golpes, contundência, fluidez em combinações e movimentação dinâmica no octógono.
Ao contrário do muay thai, que enfatiza o uso do clinch, joelhos e cotovelos, o kickboxing se concentra mais na trocação aberta, com foco em técnicas rápidas e eficientes para controlar a distância e desgastar o adversário com uma sequência constante de socos e chutes variados. A movimentação ágil e a capacidade de variar ritmos são características essenciais dessa modalidade.
Atualmente, o principal expoente da modalidade no UFC é Alex Poatan. Campeão de duas categorias no GLORY, maior organização de kickboxing do mundo, o brasileiro traduziu perfeitamente as habilidades e a potência para o octógono, onde também conquistou dois cinturões em tempo recorde. Além dele, destacam-se nomes como Israel Adesanya e Alistair Overeem.
Dustin Poirier em vitória sobre Benoit Saint-Denis (Foto: Instagram/UFC)
O boxe é provavelmente a arte marcial mais tradicional e reconhecida entre as utilizadas no MMA. Com foco exclusivo nos socos, a modalidade oferece aos atletas uma base de timing, precisão, esquiva, movimentação de pernas e controle de distância, habilidades fundamentais para o sucesso dentro do octógono, mesmo em um ambiente que exige muito mais do que apenas a luta em pé.
No UFC, especialistas em boxe costumam utilizar os jabs para pontuar e controlar a distância e golpes mais contundentes como diretos, cruzados e uppercuts para causar dano na curta. Além disso, a nobre arte contribui diretamente para o desempenho em situações de pressão e troca franca, onde leitura de ritmo e contra-ataques bem colocados fazem a diferença.
Vários atletas brilharam no UFC usando os punhos como arma principal. Os irmãos Nick e Nate Diaz adaptaram o ‘estilo mexicano’ do pugilismo, com grande volume de golpes e capacidade de absorção. Outros nomes como Petr Yan, Brandon Moreno, Dustin Poirier, Max Holloway, Conor McGregor e Stipe Miocic, destacam-se como os que melhor adaptaram a nobre arte para o octógono.
Ronda Rousey em ação no octógono. (Foto: Reprodução/UFC)
O judô, arte marcial milenar de origem japonesa, é baseado em quedas, projeções e controle corporal, com o objetivo de desequilibrar e dominar o adversário. No MMA, e especialmente no UFC, o judô se destaca por oferecer alternativas eficazes para levar a luta ao chão sem depender exclusivamente de quedas explosivas, como no wrestling. O uso de alavancas, giros de quadril e redistribuição de peso transforma o judoca em um especialista em transições rápidas e finalizações a partir do clinch.
Ainda que o número de atletas com base primária em judô seja menor em comparação a outras artes, os que conseguem adaptar sua técnica ao MMA geralmente se tornam perigosos em curta distância, onde quedas como uchi mata, harai goshi e ippon seoi nage podem surpreender até os wrestlers mais experientes.
Um dos nomes mais marcantes é o da ex-campeã peso-galo Ronda Rousey, medalhista olímpica de bronze em judô e pioneira na transição de técnicas da arte para o octógono. Ronda utilizava quedas clássicas combinadas com armlocks velozes, se tornando praticamente imbatível nos seus primeiros anos de UFC. Mais recentemente, Kayla Harrison, bicampeã olímpica da modalidade, vem construindo uma carreira promissora e pode se consolidar como uma das grandes representantes do ‘caminho suave’ no UFC nos próximos anos.
K. Nurmagomedov repetiu sua famosa provocação contra o jiu-jitsu (Foto: Reprodução/Youtube)
O sambo é uma arte marcial russa desenvolvida no século 20 para o treinamento militar e policial. Combinando elementos do judô, do wrestling e do jiu-jitsu, o sambo foca em quedas, controle no solo e finalizações rápidas, com um ritmo agressivo e voltado para a eficiência em situações de combate real.
Diferente do judô esportivo, o sambo permite mais variedade de ataques às pernas e foca em dominar a luta rapidamente com projeções diretas e finalizações contundentes, além de estrangulamentos e torções diversas. No MMA, essa abordagem se traduz em pressão constante, transições rápidas e um estilo de luta agarrada ofensivo.
O estilo se consolidou como uma das maiores forças do MMA nos últimos anos graças à ‘Onda Russa’, com nomes como Khabib Nurmagomedov, que se aposentou invicto e campeão dos leves do UFC, usando um jogo de solo implacável e domínio absoluto por cima. Seu sucessor, Islam Makhachev, segue a mesma linhagem. Ambos vieram da escola do Combat Sambo, versão mais agressiva e voltada para o combate completo, inclusive com socos e chutes. Outro nome relevante é Fedor Emelianenko, lenda do Pride e considerado um dos maiores lutadores da história, que também veio do sambo.
O sucesso desses atletas colocou o sambo no mapa como uma das bases mais completas do MMA moderno. Sua capacidade de unir trocação básica com um grappling sufocante faz com que cada entrada de queda seja um risco real de controle total ou finalização. Mais do que uma arte marcial, o sambo se tornou uma escola de domínio estratégico dentro do octógono.
Lyoto Machida conquista cinturão no UFC 98. Foto: Reprodução/Instagram
O karatê é uma arte marcial tradicional japonesa que se caracteriza pela ênfase em movimentação lateral, explosão, precisão e controle da distância. Ao contrário de modalidades de trocação mais voltadas para o volume de golpes, como o kickboxing, o karatê valoriza o golpe certeiro, aplicado no tempo e na distância ideais. Essa filosofia molda um estilo de luta baseado em entradas e saídas rápidas, com uso de chutes frontais, laterais e técnicas pouco convencionais.
Apesar de não ser a base mais comum entre os lutadores de MMA, o karatê encontrou espaço no UFC por meio de atletas que souberam adaptar sua movimentação fluida e o ritmo cadenciado às exigências do octógono. O resultado são lutadores imprevisíveis, difíceis de golpear e muitas vezes letais quando encontram o tempo certo para atacar.
Um dos nomes mais emblemáticos é o de Lyoto Machida, ex-campeão meio-pesado do UFC, que aplicou o karatê Shotokan com maestria e popularizou o “karatê no MMA” com seu estilo contra-golpeador e postura lateral. Georges St-Pierre, considerado por muitos um dos maiores de todos os tempos, também iniciou sua trajetória no karatê kyokushin e manteve muitos elementos técnicos da arte mesmo em seu jogo completo. Outro destaque é Stephen “Wonderboy” Thompson, com base no karatê americano e no kickboxing, conhecido por sua movimentação refinada, chutes rodados e golpes lançados de ângulos inusitados. Gunnar Nelson, com base no karatê Kyokushin, também apresentou boa adaptação da modalidade combinada com o jiu-jitsu.
Pettis vence Thompson por nocaute. Foto: Reprodução / Twitter @ufc
Embora algumas artes marciais não sejam tão amplamente representadas no UFC quanto boxe, wrestling, jiu-jitsu ou muay thai, elas ainda desempenham um papel importante na formação de lutadores únicos e na diversidade técnica do MMA moderno.
O taekwondo, por exemplo, tem como característica os chutes rápidos e angulados, além de uma movimentação ágil e fluida. Lutadores como Anthony Pettis e Yair Rodriguez utilizaram essa base para aplicar golpes acrobáticos e plásticos, como chutes rodados e joelhadas voadoras. Já Anderson Silva, apesar de ser amplamente identificado com o muay thai e o boxe, também demonstrava influências claras do taekwondo e do karatê em sua variedade de chutes.
Outra arte que marcou presença em momentos pontuais do MMA é a capoeira. Com sua cadência rítmica, imprevisibilidade e golpes circulares, ela foi incorporada por atletas como Michel Pereira, que encantou o público com seu estilo irreverente e movimentos coreografados dentro do octógono. Embora pouco convencional, a capoeira se destaca pelo fator surpresa.
Também merece destaque o sanda (ou sanshou), arte marcial chinesa que mistura chutes, socos e quedas, com forte base no kung fu tradicional. Lutadores como Weili Zhang e Muslim Salikhov trouxeram ao UFC elementos do boxe chinês, incluindo golpes em linha reta, cotoveladas rápidas e combinações entre trocação e quedas.
Por fim, estilos como hand-to-hand combat (muito comum em formações militares russas), kung fu e até o karate coreano têm representantes pontuais, mas que ajudam a manter o DNA do MMA como um esporte de fusões.